
Uma nova ilha pode surgir no litoral sul de São Paulo, na região de Cananéia, em decorrência do avanço acelerado da erosão no Estreito do Melão. O processo está afinando a restinga — faixa de areia que separa o oceano do Canal do Ararapira — e pode provocar o rompimento natural dessa barreira nos próximos anos.
Na prática, a nova ilha não surgirá do mar, mas do isolamento de uma área que atualmente integra a Ilha do Cardoso. A porção ao sul do estreito, com cerca de seis quilômetros de extensão, pode ficar totalmente cercada por água caso a abertura de uma nova barra oceânica se confirme — cenário projetado por estudos para o período entre 2032 e 2034.
A erosão ocorre devido à dinâmica das correntes marítimas e das marés do estuário, que desgastam continuamente a base da restinga e promovem o deslocamento de sedimentos ao longo do tempo. Em determinados trechos, a faixa arenosa já reduziu de aproximadamente 100 metros para cerca de 20 metros de largura, tornando o local altamente vulnerável a rompimentos.
Fenômeno semelhante ocorreu em 2018, na Enseada da Baleia, também na Ilha do Cardoso, quando uma forte ressaca abriu um novo canal de ligação com o oceano. A alteração modificou o equilíbrio das correntes na região e acelerou o processo erosivo em áreas próximas.
Com uma eventual abertura no Estreito do Melão, o oceano passaria a se conectar diretamente ao Canal do Ararapira, isolando a porção sul da Ilha do Cardoso e formando uma nova ilha na divisa entre São Paulo e Paraná.
A possível mudança poderá alterar o regime de correntes, a profundidade de canais e rotas de navegação, além de impactar ecossistemas sensíveis como manguezais e comunidades caiçaras próximas, entre elas Vila Mendonça e Nova Enseada da Baleia.
Especialistas destacam que a transformação integra a dinâmica natural do litoral, embora possa ser intensificada por eventos climáticos extremos e pela elevação do nível do mar.
Diante do cenário, o Ministério Público do Estado de São Paulo cobra do governo estadual a elaboração de um plano de contingência para a área, que integra o complexo estuarino-lagunar conhecido como Lagamar, considerado de alta relevância ambiental.