
Talvez eu pense assim porque, na minha época, era tudo feito à mão. Na unha mesmo. E mesmo assim, produzia muito mais do que é produzido hoje.
É evidente que o uso de inteligência artificial por órgãos públicos virou moda. Prefeituras, secretarias e assessorias estão descobrindo o poder do ChatGPT — e, claro, abusando dele. Textos automáticos, discursos genéricos, respostas padronizadas… tudo rápido, bonito e vazio. É a burocracia 2.0: digitalizada, mas ainda sem alma.
A tecnologia pode, sim, ajudar o serviço público a ser mais eficiente. Gerar relatórios, criar resumos, organizar dados — ótimo. O problema é quando ela substitui o olhar humano, o contexto local, a empatia. Comunicação pública exige sensibilidade. Quando o texto parece escrito por um robô, o cidadão sente. E se o povo sente distância, o governo perde credibilidade.
E tem a questão ética: é justo gastar dinheiro público com tecnologia usada de forma rasa? Usar IA não é o problema. O problema é usar mal. Quando o servidor público copia e cola respostas prontas sem revisar, sem adaptar, sem entender o impacto daquilo que publica, está só empacotando desinteresse com laço digital.
A IA é uma aliada, não um atalho. O governo que entender isso vai comunicar melhor, gastar menos e reconquistar a confiança das pessoas. O que não dá é deixar o robô falar sozinho em nome de quem foi eleito para ouvir.
